O Palm Springs 1960 de Robert Doisneau (1912-1994) – primeiro livro, que eu saiba, dedicado às suas fotografias a cor – lembrou-me Eles vivem! do Carpenter: há um mundo normal, que toda a gente vê da mesma maneira, mais coisa, menos coisa; mas desde que se olhe para esse mundo através de uns óculos especiais, ele transfigura-se: passa a ser a preto e branco, com pessoas – como eu, ou qualquer um de vocês, suponho – e extraterrestres, e só o uso dos tais óculos permite distingui-los. Do mesmo modo, o mundo visto por Doisneau a preto e branco não é o mundo que todos vemos, porque só ele conseguia reconhecer grandeza nas pessoas banais com quem nos cruzamos todos os dias, sem que as suponhamos merecedoras de mais do que um olhar desatento.
(Antes do mais, o seu a seu dono: a apreciação com que termina o parágrafo anterior é a mera perífrase – deselegante, ainda por cima – de uma frase de Jean Loup Sieff, que não recordo textualmente, nem tenho como recuperar. Paciência: nos casos em que a alternativa é a incorreção, venha a deselegância).
Apesar da diferença fundamental que distingue o filme de Carpenter da obra de Doisneau (o mundo a preto e branco do primeiro é frio e ameaçador, inumano; o do segundo é divertido e caloroso, humano), ambos coincidem em dois aspetos: 1- é o preto e branco que nos permite passar além das aparências; 2- a realidade a cores é banalucha e pouco significativa. Ah, é verdade – ainda não tinha dito isto, pois não? Palm Springs 1960 é um livrito banalucho e pouco significativo.
Pode, quem quiser, desinquietar-se com várias explicações para o facto de um enorme autor ter realizado imagens de uma tão confrangedora banalidade: uma coisa é fotografar Paris, onde Doisneau sempre viveu, outra diferente é chegar a Palm Springs, onde ele nunca tinha estado (nem sequer nos EUA), e despachar em dez dias uma reportagem sobre a cidade, modos de vida e atividades dos seus habitantes, utilizando, ainda por cima, película a cores, que não conheceria ou a que, no mínimo, não estava habituado. Pessoalmente, não vejo motivos para inquietações. Palm Springs foi um fiasco óbvio (todos nós temos os nossos dias maus), de tal maneira que o próprio Doisneau proscreveu as imagens daí resultantes da sua obra: entre 1960, ano em que foram tiradas, e 1994, ano da sua morte, não há uma única destas fotografias nos seus livros. A publicação (mais de quinze anos após a sua morte) de imagens que ele, implicitamente, renegou não põe de modo nenhum em causa o imenso talento de Doisneau, do mesmo modo – por exemplo – que os sonetos atrozes de Camilo Castelo Branco não me impedem de permanecer um leitor e releitor ávido dos seus contos e novelas.
Aquilo que me parece digno de atenção em tudo isto (para além, é claro, da notória cupidez das manas Doisneau-Deroudille, filhas do fotógrafo e herdeiras dos direitos sobre a sua obra), é o modo como a cor baralha dados que tínhamos por irrefutáveis. A desproporção entre a obra a preto e branco – imensa, felizmente – de Doisneau e a modéstia deste livrito diz que o problema não está no autor, mas na cor. Por outras palavras, Palm Springs 1960 não funciona, porque a cor não funciona. As fotos são demasiado coloridas para que a magia de Doisneau atue, mas não são suficientemente coloridas para que nos interessemos pela ausência do preto e branco. Em Fotografia, o preto e branco é o que se espera (a expressão “preto e branco” devia ser obrigatória na definição da Fotografia, de tal modo está entranhada na sua prática); já a cor, porque mais natural, tende a desviar a nossa atenção, fazendo-nos esquecer de que não estamos perante a realidade. O preto e branco é, por isso, um passo em direção à abstração (ou “Arte”; neste caso, tanto faz), enquanto que a cor é um passo em direção à banalidade. Ora, não vemos do mesmo modo, não empregamos o mesmo tipo de “lentes” (ou de atenção) para olhar a Arte, ou a Banalidade; e corremos sempre o risco de trocar as lentes. Daí que a cor, para escapar à banalidade, tenha de ser evidente, tenha de tornar-se o centro da imagem. Toda a fotografia a cores fala de cor – ou tem de fazê-lo, se quiser funcionar – e é bom, por isso, que mostre saber do que está a falar. Alex Webb é um extraordinário fotógrafo, devido à violência dos contrastes e ao nível de saturação da cor nas suas fotos. Olhamos para elas e aquilo vê-se logo que não é autêntico (embora possam ocorrer “momentos Alex Webb” no mundo: afinal, a vida esforça-se por imitar a arte). O trabalho da cor em Alex Webb é tão evidente que, ao ver as suas cores, eu estou a ver o seu trabalho e não confundo, por isso, a cena trabalhada com a realidade. Por outras palavras: não corro o risco de olhar para as fotos de Alex Webb com as lentes da banalidade.
A. Webb, Haiti, 1986-88
Foi esta ostentação da cor que faltou em Palm Springs 1960. Não será por isso que Doisneau deixa de ser um grande fotógrafo: mostrou foi não ser um colorista. Numa fotografia, a cor tem de ser trabalhada e exposta logo na abertura, correndo-se o risco, caso contrário, de que não se lhe dedique o tipo de atenção necessária à sua correta apreciação. A consciência da presença da cor deve situar-se ao mesmo nível do que nos faz identificar, de imediato, o género fotográfico: primeiro dizemos “É uma paisagem”, e só depois nos concentramos na linha de caminho de ferro, em baixo à direita; ou, “É um retrato”, antes de repararmos no sinal, perto do canto da boca do modelo.
Stephen Shore (The Nature of Photographs) diz que a cor torna a fotografia mais transparente, porque a cor é mais como vemos e, por isso, somos menos detidos pela superfície. Talvez resida aí o problema da cor: a sua naturalidade permite que o olhar se embrenhe demasiado na imagem, para lá do ponto em que a estranheza do que observamos nos obrigue a um movimento de recuo e reavaliação do objeto que nos enfrenta. Por isso, se quiser ser levada a sério, a cor está obrigada a gritar a sua presença desde o início, a chamar a atenção para o modo como mostra, antes que nos alheemos e percamos simplesmente naquilo que mostra. Provavelmente, a cor é, afinal, um género – ou terá de o ser, para existir de pleno direito.



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