East Sussex coast (1957)
Bill Brandt (1904-1983)
Corpos em praias não constituem motivo para surpresas, mas há modos e modos de os mostrar. Nesta foto de Bill Brandt, a questão do mostrar é primordial: o que é que se vê, aqui? De cima para baixo, dividida em terços de extensão equivalente, a imagem representa, primeiro, uma falésia e um céu carregado, de textura quase tão pedregosa quanto ela; depois, um troço de praia rochosa; finalmente, um pormenor de uma cabeça humana, destacando uma orelha. A pouca importância relativa dada a cada um destes elementos faz com que não se perceba, de imediato, qual é o centro desta foto: falta céu, para que a tempestade possa constituir o seu tema; o penhasco e a praia não são de molde a permitir localizar categoricamente o ponto da costa em que se situa a cena; e o detalhe da figura humana é tão pequeno que ela está para lá (ou para cá?) de qualquer hipótese de reconhecimento – não conseguimos, sequer, perceber o seu género, ou idade. Felizmente, dispomos de elementos externos que levantam um pouco o véu do mistério: esta foto aparece no livro Nudes 1945-1980 (1980). A data bate certo: 1957 situa-se entre 1945 e 1980; logo, isto há de ser um nu.
À partida, parece não haver grandes razões para esperar (e, consequentemente, aceitar) que a representação de uma orelha se enquadre num género em que nos habituámos a ver as formas humanas exibidas mais amplamente. Aliás, se desmanchássemos o corpo humano e atribuíssemos a cada género fotográfico os membros mais prezados pelas respetivas práticas, suponho que a orelha iria, direitinha, para o retrato; consensualmente. Dá-se, porém, o caso (embora isto possa irritar muitos) de a produção artística não ser uma atividade regida por consensos; e daí resulta precisamente que, com frequência, a exibição de imagens – fotográficas, ou outras – se defronte com a intransigência de códigos morais e legais que procuram negar àquelas a exibição pública, mesmo em espaços que a elas pareciam dedicados, como sejam, por exemplo, os museus. O sururu póstumo à volta da obra de Mapplethorpe (1946-1989) é um bom exemplo – e fotográfico, ainda por cima; embora, no seu caso, as vozes críticas considerem que as suas fotos pecam não pelo escasso, como a que nos ocupa presentemente, mas pelo excesso.
De uma coisa podemos estar certos, porém, ao vermos as fotos de Nudes 1945-1980: esta orelha não é um lapso, inscrevendo-se, pelo contrário, numa galeria de imagens “impróprias”, enquanto nus: pés; joelhos e cotovelos; mãos; dedos, apenas… Os nus de Bill Brandt são-no, no limite, porque representam partes do corpo livres de qualquer roupagem; mas essas partes não são as adequadas (as “boas”). Pudor do fotógrafo em confrontar-se com a visão do corpo feminino, ou (justo) receio em desencadear a ira persecutória de instâncias censórias? Não em ambos os casos, e por duas razões: por um lado, porque junto a estas imagens menos habituais, vemos nus ortodoxos – com seios, coxas, nádegas e púbis devidamente destacados; por outro, porque esta aproximação excessiva ao fotografado, de modo a isolar um detalhe insuficiente (em termos dos códigos que regem a expetativa do público) manifesta-se, igualmente, no modo como o fotógrafo trata outros géneros fotográficos – nomeadamente o retrato e a paisagem. A questão deixa de se pôr, assim, em relação aos nus de Brandt, para se estender a outros campos da sua obra.
B. Brandt, Wiltshire, 1948 B. Brandt, Jean Arp, 1960
Tomemos, por exemplo, o caso de “Jean Arp”: ao identificar o artista pelo seu nome próprio (situando-o, através da data, num determinado ponto do curso da sua vida), esta foto assume-se como um retrato. Porém, ao enquadrar demasiado perto, demasiado pouco o rosto de Arp, Brandt desarma a lógica do género, tornando irreconhecível uma figura cujo reconhecimento, precisamente, o retrato devia celebrar. E este não é caso único: Brandt retratou outros artistas segundo a mesma convenção – isto é, de modo a que apenas um dos olhos preencha a totalidade (ou quase) do campo da foto. Tal acontece, por exemplo, também em “Giacometti” (1963), “Georges Braque”e “Jean Dubuffet” (ambos de 1960), ou “Max Ernst” (ainda de 1963). Poderíamos ver em todas estas fotos um esforço original para nos revelar o íntimo de grandes criadores: são os olhos, ou não são, as janelas da alma? Nesse caso, aproximarmo-nos, ao ponto de encostar a cabeça ao vidro, pode ser um bom modo de ficarmos a conhecer o que está por trás delas… Mas não: tal como em “East Sussex coast”, a excessiva proximidade deturpa a intenção inicial e torna o fotografado ilegível, à luz do género em que a foto originalmente se insere. Do mesmo modo, a promessa de paisagem que é “Wiltshire” (de seu nome completo, “Barbary Castle, Malborough Downs, Wiltshire”), de 1948, é anulada pela estreiteza do campo da foto, ridiculamente reduzido pela interposição, em primeiro plano, de um acidente de terreno, o qual impede, ainda por cima, todo o efeito de perspetiva que permitisse, ao menos, uma ilusão de profundidade! O que é mostrado resume-se, assim, a uma estreita língua de terra, onde dois arvoredos se destacam sobre uma linha do horizonte apenas percetível, numa abstração bidimensional que nega o largo espaço e visão panorâmica típicos da paisagem.
Face a isto, poderemos falar de uma estética da deceção? A obra de Brandt consistiria na demonstração da impraticabidade dos géneros, feita através de uma estrita observância dos seus mecanismos representativos levada aos limites? Considerá-la assim, no entanto, seria esquecer uma parte ainda mais significativa da obra do fotógrafo, em que retratos, nus e paisagens estão em harmonia com os cânones dos respetivos géneros. Penso que uma leitura como a sugerida atrás seria redutora, e que estas fotos de Bill Brandt não pretendem mostrar a sua própria impossibilidade, mas sim interpelar as expetativas de quem as acolhe. No fundo, perguntam-nos até onde estamos dispostos a ir por uma fotografia – o que é que consideramos aceitável num nu, num retrato, ou numa paisagem, forçando-nos assim a questionar os nossos pressupostos e a tomar consciência dos nossos próprios limites. Finalmente, esta é uma questão particularmente delicada: no caso dos nus, por exemplo, aquilo que aceitarmos ou recusarmos pode determinar a sua visibilidade, ou encorajar formas institucionais de censura. Aqui chegados, já estamos para lá dos limites da representação, ou das expetativas dos públicos, ou da arte: é aqui que se negoceiam os limites ao direito à liberdade de expressão, e a participação nesse debate será tanto mais eficaz quanto melhor os intervenientes conhecerem as suas próprias motivações.









