segunda-feira, 31 de agosto de 2015



quinta-feira, 11 de junho de 2015


A Fotografia existe?





 "Por exemplo, Cristina Garcia (sic) Rodero e o seu trabalho
sobre a Espanha Oculta ensinou(sic)-me que não se fazia
um projeto em três meses, que era uma questão de anos."
 (Txema Salvans, Photo Réponses hors série nº 19, p.91)


A marca de água da fotografia foi a sua fidelidade ao real. É essa fidelidade que Henry Fox Talbot (o inventor do negativo) reivindica em 1846, em The pencil of Nature: "Uma vantagem da descoberta da arte fotográfica será o permitir-nos introduzir nos nossos quadros uma imensidade de minúsculos detalhes que se somarão à veracidade e ao realismo da representação, mas que nenhum artista se daria ao trabalho de copiar fielmente da natureza"; é por causa dessa fidelidade que Baudelaire - em 1859, num texto fascinante em que consegue, simultaneamente, ter toda a razão e não ter razão nenhuma - arrasa a Fotografia: "Em matéria de pintura e estatuária, o "Credo" atual das gentes do mundo, sobretudo em França (e não me parece que quem quer que seja ouse afirmar o contrário), é este: ‘Creio na natureza e só na natureza (há boas razões para isso). Creio que a arte é e só pode ser a reprodução exata da natureza (uma seita tímida e dissidente pretende que os objetos repugnantes da natureza sejam afastados, como um penico ou um esqueleto). Assim, a indústria que nos desse um resultado idêntico à natureza seria a arte absoluta.’ Um Deus vingador satisfez os votos desta multidão. Daguerre foi o seu Messias". É mesmo esta a postura de Barthes, em A câmara clara (1980): aí, a fotografia (qualquer fotografia) "diz: ‘isto, é isto!, é assim!’ Mas não diz mais nada"; "não pode sair desta pura linguagem deítica"; "não se distingue nunca do seu referente (daquilo que representa)".
Quanto a esta questão, estamos conversados: a história encarregou-se de nos mostrar como as fotografias, ao longo do tempo, têm sido manipuladas, de modo a delas excluir certas presenças, e ainda este ano deu-nos mais um exemplo significativo, na versão só para homens da fotografia do desfile de repúdio pelo atentado contra a redacção de Charlie Hebdo, em Paris, publicada não sei em que jornal israelita (ainda mais próximo de nós, temos o caso da imagem de Jorge Jesus, entretanto transferido para o Sporting, obliterada da fotografia comemorativa do bicampeonato de futebol do Benfica). O próprio Txema Salvans, na mesma entrevista cujo excerto serve de epígrafe a esta breve (notar a ironia) reflexão, se demarca desse mito fundador da Fotografia: "tento documentar através do meu olhar que não é objetivo. Como é que o poderia ser? Na fotografia, não há objetividade" (idem, p.92).
Na mesma semana em que li a entrevista de Salvans, descobri, na imprensa nacional, que a exposição Génesis, de Sebastião Salgado, vem a Lisboa: estará - como se diz - patente ao público na Cordoaria Nacional, em Lisboa, de 8 de abril até agosto. "Fotógrafo brasileiro levou oito anos a concretizar projeto", subtitula o Público. Outros falam de dez anos, mas não é o número em si que interessa: é a palavra "anos", precedida de um numeral. Junte-se-lhe a apreciação que Salvans faz do trabalho de Cristina García Rodero e parece ser, agora, não o real – cuja dívida a Fotografia, pelos vistos, já pagou (embora o mais provável seja que a tenha esquecido) – , mas sim o tempo, aquilo que sanciona/valoriza a prática fotográfica. Talvez que a fatalidade da Fotografia não seja, afinal, a sua dependência da realidade, mas sim a sua incapacidade de existir sem alibis.






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