Simone(1955)
Mario Giacomelli(1925-2000)
De um lado, temos a personagem principal (um rapaz sorridente); do outro, um grupo de crianças, demasiado desfocadas para que lhes possam ser apontados traços pertinentes indesmentíveis – embora seja de supor (pela data, 1955) que são também rapazes, por se apresentarem todas de calças e de cabelo curto. O rapaz isolado impõe-se, desde logo: encostado à esquerda, é por ele que se inicia a leitura; a sua figura, em primeiro plano, agiganta-se em relação aos restantes intervenientes, quer por efeito da perspetiva, quer pelo ângulo (contrapicado) escolhido pelo fotógrafo para registar a cena; e é o único elemento que está focado na imagem. Este destaque, bem como o facto de ser uma figura singular (ao contrário do grupo plural que enfrenta), levam a concluir que “Simone” deve ser o seu nome – reforçando-se assim, com a autoridade externa do título, a importância que a estrutura da imagem lhe confere. Quanto aos vultos escuros à direita, destacando-se sobre um fundo branco… que esperem: daqui a uns anos, Giacomelli dedicar-lhes-á uma das suas mais belas (e conhecidas) séries, composta por imagens de padres a brincar na neve (vista retrospetivamente, “Simone” ganha, assim, uma importância acrescida, como o primeiro ensaio de Não tenho mãos que me acariciem o rosto).
Apesar da vantagem resultante da importância que tem na imagem, Simone está inquieto: hesita, detém-se; contém-se. O corpo, lançado para diante, denuncia a vontade do jogo; porém a cabeça, virada para trás, em resposta a um apelo lançado de fora do campo, contraria o desejo do corpo. Sorri, timidamente, na expetativa: é um desconhecido que se lhe dirige – um fotógrafo – e Simone não sabe o que quer dele. Ao sorrir, porém, mostra que não vê a intervenção de quem o interpela como uma contrariedade; antes, se olharmos com atenção, notamos que parece até aliviado. É que, por muita vontade que tenha de ir correr e saltar para a neve, as palavras da mãe não lhe saem da cabeça: Não quero cá brincadeiras violentas nem correrias quando estiveres de casaco, ouviste?! O casaco que recebeu do irmão mais velho e que ainda há de ter de servir para o próximo, a quem o cederá em breve, de tal modo já lhe está pequeno. E a que se dedicam os amigos, ali tão perto e tão longe? Nem de propósito, a uma atividade que cai rigorosamente no âmbito da proibição que o sujeita: uma batalha de bolas de neve.
De momento, a batalha de Simone é interior. A alegria que o sorriso ostenta vai a par com o desconforto, também evidente, que lhe causa a atitude forçada de espetador. Este conflito era já visível na sua postura, mesmo antes de voltar a cabeça: as mãos nos bolsos desmentiam a total disponibilidade para a brincadeira. Daí que tenha ficado secretamente grato ao fotógrafo por tê-lo chamado, o que lhe dá um ótimo pretexto para não ir ter com os amigos, sem se expor à sua troça. Por outro lado, o interesse demonstrado pelo estranho intimida-o: deve ignorá-lo, voltar costas, mostrar-se desagradado? Ou, para lá de todo o incómodo, deve tratar aquele desconhecido como lhe ensinaram – com cortesia? Uma coisa Simone sabe, desde já: enquanto ele não se afastar, enquanto se sentir presa do olho de vidro da máquina fotográfica, não estará à vontade para ir brincar com os amigos. A consciência de ser o foco de uma atenção que não sabe para que é que serve é demasiado inibidora… Simone hesita – vai, não vai? – e, nesse instante da hesitação, o fotógrafo decide por ele: “Simone” diz-nos que Simone não vai.
Alegria, desconforto, expetativa, timidez, alívio, consciência de si… o rosto de Simone transborda de sentidos, muitos dos quais contraditórios. É essa abundância de sentido que faz dele uma personagem profundamente humana: ao contrário da máscara, que representa uma única emoção, o rosto de Simone ensina-nos que o humano é um composto; não existe em estado puro. Somos, a cada momento, o resultado breve de uma equação complexa, envolvendo valores e incógnitas circunstanciais e, por isso mesmo, tão variável como o são as circunstâncias. Negociamos cada instante, em nome de experiências e influências constantemente sujeitas a atualizações e revalorizações. Não pode deixar de ser assim: negá-lo condenar-nos-ia à irresolução e à imobilidade, visto que as nossas ações dependem da avaliação que fazemos do momento que as antecede. Simone, ao contrário dos seus amigos, hesita: naquele instante, no instante da fotografia, não está ainda em condições de decidir. No instante seguinte agirá, e a nós, terminada a leitura resta-nos essa deliciosa imponderabilidade: vai, ou não vai? Qual das atitudes aprovaríamos, com qual ficaríamos desapontados? Que espécie de Simone fomos, ou continuamos a ser?
“Simone” é, afinal, uma alegoria do crescimento. A estatura de Simone (maior, por efeito da perspetiva, do que as outras crianças) e o casaco apertado são disso marcas, traços que o distinguem dos restantes intervenientes da cena. Do mesmo modo que os amigos brincam “naturalmente”, Simone hesita porque é essa a sua (nova) condição; já não pertence ali, embora ele próprio tenha ainda alguma dificuldade em aceitar o seu novo estatuto e procure iludir-se… Nós, porém, temos diante de nós toda a imagem e por isso não temos ilusões: as manchas escuras (rochas?), ameaçadoras, que se acumulam como nuvens tempestuosas sobre as crianças que brincam e que bem podem representar os perigos e dificuldades da idade adulta invadem já o espaço ocupado por Simone. Para além de dois fragmentos menores, que lhe despontam nas costas (na zona do ombro, um, na região lombar, o outro), não podemos deixar de notar como duas manchas maiores se confundem com o seu vulto, atingindo, estrategicamente, as duas sedes tradicionais do conhecimento e da ação no ser humano – a cabeça e o coração. Não há dúvida: ao contrário das outras crianças, separadas ainda das manchas negras por uma confortável margem branca (e embora lhe volte ainda as costas), Simone já está no centro da tempestade.
